EXCLUSIVO PARA CLIENTES - BRASÍLIA, 11 de AGOSTO de 2005 - Nº 358   - Semanal

O BALANÇO DOS CENÁRIOS

O depoimento do publicitário Duda Mendonça e de sua sócia Zilmar Fernandes na CPI dos Correios está mudando a configuração dos cenários de evolução da crise política. Ao reconhecer, publicamente, que parte das dívidas de campanha de 2002 foi paga, no exterior, e com recursos ilegais, deixa o mandato do presidente Lula em questão pela possibilidade de configuração de crime eleitoral. Além disso, vários aspectos das versões sobre os eventos do “mensalão” foram derrubados. O publicitário Marcos Valério, por exemplo, sempre negou ter contas no exterior, agora apresentadas como a origem dos pagamentos irregulares a Duda Mendonça. Diante dos fatos, torna-se necessário corrigir o balanço dos cenários desenhados para a crise política. A possibilidade de impeachment do presidente Lula aumentou.

O cenário de ‘crise permanente’, sem risco direto ao mandato do presidente da República, permanece dominante, por conta das condições da economia e da opinião pública, mas as conexões da campanha de Lula com os recursos de Marcos Valério ficaram mais claras. Trata-se, assim, de elemento novo capaz de permitir à oposição um ataque direto ao presidente da República, seja por crime eleitoral, seja por crime de responsabilidade.

Naturalmente, o impeachment não é uma questão de vontade da oposição: são necessários os votos de dois terços dos membros da Câmara dos Deputados para a aprovação do pedido de abertura do processo. Trata-se de uma Câmara dos Deputados que mal absorveu ainda o escândalo do “mensalão”, uma ameaça a dezenas de parlamentares. O presidente da República, portanto, tem ainda tempo e condições políticas para resistir à investida oposição, mas já não tem chance de superar o cenário de ‘crise permanente’.

Entretanto, o elemento mais grave que o depoimento do publicitário Duda Mendonça traz para desequilibrar o balanço dos cenários é outro. Duda Mendonça está reconfirmando a existência, antes não suspeitada na escala agora conhecida, de um vasto esquema de financiamento ilegal de campanha, cujas fontes podem ser a lavagem de dinheiro e a corrupção. O mesmo esquema alimentava igualmente o “mensalão”. Diante de um esquema de tal dimensão, ficará mais difícil sustentar, de forma aceitável, a falta de conhecimento do presidente Lula.

A erosão da credibilidade de Lula como liderança no comando do Executivo será o gatilho de um processo de impeachment, agregando aos fatos conhecidos a noção de responsabilidade política pelos eventuais crimes. A realidade do impeachment, portanto, deixou de ser apenas uma sombra.

 

 

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