O depoimento do publicitário
Duda Mendonça e de sua sócia Zilmar Fernandes na CPI dos Correios
está mudando a configuração dos cenários de evolução da crise
política. Ao reconhecer, publicamente, que parte das dívidas de
campanha de 2002 foi paga, no exterior, e com recursos ilegais,
deixa o mandato do presidente Lula em questão pela possibilidade de
configuração de crime eleitoral. Além disso, vários aspectos das
versões sobre os eventos do “mensalão” foram derrubados. O
publicitário Marcos Valério, por exemplo, sempre negou ter contas
no exterior, agora apresentadas como a origem dos pagamentos
irregulares a Duda Mendonça. Diante dos fatos, torna-se necessário
corrigir o balanço dos cenários desenhados para a crise política.
A possibilidade de impeachment do presidente Lula aumentou.
O cenário de ‘crise
permanente’, sem risco direto ao mandato do presidente da República,
permanece dominante, por conta das condições da economia e da
opinião pública, mas as conexões da campanha de Lula com os
recursos de Marcos Valério ficaram mais claras. Trata-se, assim, de
elemento novo capaz de permitir à oposição um ataque direto ao
presidente da República, seja por crime eleitoral, seja por crime
de responsabilidade.
Naturalmente, o impeachment não é uma questão de vontade da oposição: são necessários os votos de dois terços dos membros da Câmara dos Deputados para a aprovação do pedido de abertura do processo. Trata-se de uma Câmara dos Deputados que mal absorveu ainda o escândalo do “mensalão”, uma ameaça a dezenas de parlamentares. O presidente da República, portanto, tem ainda tempo e condições políticas para resistir à investida oposição, mas já não tem chance de superar o cenário de ‘crise permanente’.
Entretanto, o elemento mais
grave que o depoimento do publicitário Duda Mendonça traz para
desequilibrar o balanço dos cenários é outro. Duda Mendonça está
reconfirmando a existência, antes não suspeitada na escala agora
conhecida, de um vasto esquema de financiamento ilegal de campanha,
cujas fontes podem ser a lavagem de dinheiro e a corrupção. O
mesmo esquema alimentava igualmente o “mensalão”. Diante de um
esquema de tal dimensão, ficará mais difícil sustentar, de forma
aceitável, a falta de conhecimento do presidente Lula.
A erosão da credibilidade de Lula como liderança no comando do Executivo será o gatilho de um processo de impeachment, agregando aos fatos conhecidos a noção de responsabilidade política pelos eventuais crimes. A realidade do impeachment, portanto, deixou de ser apenas uma sombra.