EXCLUSIVO PARA CLIENTES - BRASÍLIA, 30 de JANEIRO de 2004 - nº 225 - Mensal
O ESTADO ATUAL DA LIDERANÇA DO PRESIDENTE LULA
 

1. Introdução
Não é incomum que um presidente do Brasil mereça um editorial do The New York Times. A situação política da América Latina tem um espaço cativo, ainda que limitado, nas preocupações das elites norte-americanas e a menção ao Brasil é obrigatória, por conta do tamanho e da importância econômica do país. O ex-presidente Cardoso, por exemplo, mereceu comentários positivos do mesmo jornal em várias ocasiões. O fato novo registrado pelo editorial do último dia 24 de janeiro é que Lula recebe uma avaliação favorável, apesar ou mesmo por causa de sua posição de confronto com o governo dos Estados Unidos.
O diagnóstico das primeiras linhas é contundente. Um ano após assumir a presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, um antigo líder sindical, deslocou presidente mexicano Vicente Fox como o mais influente político latino-americano e tem uma presença crescente no cenário mundial. As repercussões da ascendência do Brasil para a administração Bush são claras: relações melhores com a América Latina dependem agora de maior proximidade com Brasília. Deixando de lado as especulações sobre os motivos, por vezes sutis, dos editoriais jornalísticos, a verdade é que a independência da liderança de Lula é apresentada sob uma luz positiva.
O fato incomum teria, contudo, uma explicação trivial. O compromisso com uma política econômica conservadora, que não recua ante a necessidade de elevar juros e conter os gastos públicos e promete para breve a autonomia do Banco Central, teria conquistado a confiança dos mercados e dos parceiros internacionais. Dessa maneira, o presidente Lula terá garantido para si uma margem de manobra maior, que lhe permite aventurar-se em outros domínios com maior independência.
Tal leitura dos fatos, porém, seria, no mínimo, unidimensional. Não leva em conta as circunstâncias em que se verifica a afirmação da liderança de Lula e, portanto, não é capaz de explorar todas as suas implicações. Há sinais claros de que o efeito catalisador proporcionado por tais circunstâncias é relativamente extenso e permite elevar consideravelmente os recursos políticos do presidente brasileiro.
Essa avaliação, naturalmente, independe de qualquer juízo de valor sobre o uso que faz o fará de tais recursos. Em boa medida, apenas a história pode responder a tal pergunta. Importa registrar o fato. No momento, Lula credencia-se para uma longa permanência no poder. As próximas páginas desta Análise Mensal tentam justificar tal afirmação.
 

2. Política externa: na hora certa, no lugar certo
Estivesse Bill Clinton em um hipotético terceiro mandato, exercendo com maestria seu estilo firme, mas conciliador na condução da política externa e com uma sólida diplomacia econômica por trás de suas palavras, a postura de resistência do governo brasileiro certamente estaria deslocada. No mínimo, soaria mal e, assim, teria escassa repercussão. Não é o caso, porém. No comando da Casa Branca está uma liderança que pôs novamente os Estados Unidos na trilha imperial, conduzindo uma notável expansão militar, que levou bases americanas ao interior da Ásia e ao primeiro envio de tropas japonesas ao exterior desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Internamente, a administração Bush não se intimidou diante de ortodoxias, cortando impostos, gerando déficits e embarcando em um explícito protecionismo comercial com finalidades eleitorais. Na linguagem da política, caminhou para a direita e arrastou toda a política mundial. O presidente Lula, em seu discreto antiamericanismo, viu-se, então, postado exatamente no centro político, alinhado com o que poderia ser chamado de opinião mundial.
Nessas condições, o governo brasileiro pôde finalmente passar das palavras à ação, conduzindo um bloqueio efetivo de negociações comerciais que não contemplassem o interesse dos países menos desenvolvidos. A ação brasileira tornou-se visível nas negociações da OMC em Cancún e decisiva nas negociações da Alca em Trinidad y Tobago. O chefe do USTR, Robert Zoellick, deu-se mesmo ao trabalho de considerar o Brasil como um dos “países que dizem não”. Poucos meses depois, contudo, os Estados Unidos embarcariam em novas medidas protecionistas que legitimariam a posição brasileira.
Mais uma vez, a voz do presidente Lula contra os subsídios agrícolas seria naturalmente dissolvida no cenário internacional, caso o mundo desenvolvido estivesse unido na defesa implacável de seus interesses econômicos. A guerra no Iraque e a postura dos Estados Unidos na ONU, porém, produziram divisões inéditas mesmo na Otan e algum espaço foi garantido para uma atuação mais independente do Brasil.
No plano regional, a situação do presidente Lula da Silva também pode ser considerada excepcional. Em termos gerais, enquanto crises políticas e institucionais engolfavam Peru, Colômbia, Venezuela, Argentina e Bolívia, o Brasil produzia uma pacífica transição de governo, seguida de um processo seguro de estabilização econômica. No plano pessoal, a liderança moderada de Lula foi sendo realçada pela crise política na Venezuela e mesmo pela postura desafiadora do presidente argentino, Nestor Kirchner. O presidente brasileiro, por exclusão, terminou como o interlocutor preferencial dos Estados Unidos na região, no que foi ajudado também por evento imprevistos, como a decisão do governo mexicano, que negou apoio à guerra no Iraque no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Também nesse plano o governo brasileiro foi capaz de ir além das palavras. Não foi de mãos vazias buscar alianças mais estreitas com seus parceiros da América Latina, oferecendo linhas de financiamento à Argentina e à Venezuela. Pode-se argumentar que é pouco dinheiro e pouco relevante, mas trata-se de algo concreto e que foi devidamente anotado em Washington.
Se, no exterior, uma política externa mais afirmativa encontrou um terreno ideal para se desenvolver, haveria sempre o risco de efeitos colaterais de ordem interna. Uma confrontação com os Estados Unidos, mesmo discreta, poderia criar tensões nas relações econômicas entre os dois países e, em termos ideológicos, estaria longe das preferências do establishment brasileiro. Em uma de suas edições recentes, a revista Veja chegou mesmo a questionar publicamente a decisão de desafiar o governo norte-americano.
Novamente, as divisões no empresariado ajudaram o governo Lula da Silva. Temerosas dos efeitos da formação da ALCA em uma fase de dificuldades e ajustes da economia brasileira, as organizações empresariais terminaram vendo com bons olhos a cautela do Itamaraty e as condições por ele impostas para avançar nas negociações comerciais.
Nem mesmo a intensa diplomacia presidencial praticada por Lula gerou descontentamento na opinião pública. O fato dele mesmo ter sido um crítico veemente das viagens do ex-presidente Cardoso ao exterior não afetou sua imagem aos olhos da opinião pública.

3. Política interna: um governo sem oposição
Se o sucesso imprevisto da política externa do governo Lula pode ser explicado pela ajuda das circunstâncias, a evolução de sua popularidade interna exige hipóteses um pouco mais ousadas. Afinal, uma leitura fria dos fatos políticos de 2003 mostraria que o presidente Lula, apesar de todas as promessas de campanha, embarcou não apenas em uma política econômica de continuidade, mas deflagrou um processo de reformas em que foi capaz até mesmo de aprovar a contribuição previdenciária dos funcionários públicos inativos.
Era fácil projetar vagas de protesto e desgaste inevitável diante dos números frustrantes de crescimento econômico e emprego. O ano de 2003 pode terminar marcado por uma queda no PIB, mas a aprovação do presidente Lula, descontado o período de lua-de-mel, caiu cerca de oito pontos em cerca de dez meses, atingindo em dezembro de 2003 um patamar confortável, em torno a 70%.
Para comparar, lembre-se que a desvalorização cambial roubou vinte pontos percentuais da avaliação positiva do governo Cardoso em pouco mais de seis meses, no primeiro semestre de 1999. A crise do “apagão” retirou dezesseis pontos dos níveis de aprovação do presidente Cardoso em cerca de três meses.
Não deve surpreender, portanto, que pesquisas qualitativas mostrem a satisfação do eleitorado com um presidente da República-líder operário, que fala de modo simples e direto e se emociona. Lula tem um amplo crédito de confiança, que lhe permitiu atravessar o ano de 2003 com danos mínimos e entrar em 2004 à frente de uma vaga de promessas positivas.
O efeito político mais importante da robustez da popularidade presidencial, que se reflete, naturalmente, em um noticiário geralmente positivo para o governo, é o bloqueio da emergência de novas lideranças. No Brasil, política se faz em torno de pessoas, de líderes, e a experiência do PT na oposição basta para ilustrar o fato. Quando o eleitor julgou que era hora de mudar, escolheu a oposição visível: Lula.
Nas circunstâncias atuais, não se formam “candidaturas potenciais” capazes de disputar a cena pública com o presidente. Por mais que a oposição se movesse em 2003, nenhum dos governadores do PSDB ou das lideranças do PFL conseguiu apresentar-se como um contendor reconhecido do presidente Lula da Silva.
Para completar, a adoção de um programa de reformas deixou encurralada a oposição no Congresso, que não tinha legitimidade para se opor ao que defendia, nem condições internas para uma ofensiva incondicional sobre o governo Lula. Divididos e presos na armadilha da “oposição construtiva”, PFL e PSDB, a rigor, ainda buscam um caminho em 2004.
Assim, por si mesmo forte como centro de atração, o governo se tornou irresistível. Conseguiu aprovar suas reformas usando os votos da oposição e com dissidências mínimas em sua própria base. Para 2004, sua agenda legislativa se apresenta com baixíssimo teor polêmico e o presidente Lula parece que vai dela retirar seu único item realmente sensível: a autonomia do Banco Central. A eleição municipal de 2004 deve completar esse movimento de esvaziamento do Congresso e o presidente da República estará mais uma vez sozinho no cenário político.
A fase favorável vivida pela liderança presidencial fica realçada pelo curso da recente reforma ministerial e pelos efeitos da convocação extraordinária do Congresso.
O que ia sendo caracterizado como uma simples troca de cargos com o PMDB, transformou-se em um amplo processo de redesenho da área social, com troca de nomes na Assistência Social no ministério extraordinário da Segurança Alimentar e na Educação. Não será surpresa se a reforma terminar contribuindo para a popularidade presidencial. Quanto à convocação do Congresso, com seus salários extras e plenários vazios, correrá, como sempre, à conta do prestígio do Legislativo, que a contragosto cedeu aos motivos do Executivo, aceitando a convocação. Enquanto isso, o presidente da República viajava à Índia.
O cenário político em 2004, portanto, promete um presidente da República quase sempre envolvido com o anúncio de boas notícias na área econômica, distante das confusões do Congresso, com uma maioria sólida e sem desafiantes na arena política. O novo arranjo da Casa Civil pode mesmo distanciar Lula dos desgastes correntes da administração, reservando-lhe apenas as grandes decisões e arbitramentos.


4. Observações finais
Seria trivial observar que toda essa construção política certamente seria abalada por uma crise econômica mais ampla, capaz de agravar a crise social, ou por um escândalo de corrupção. O que importa identificar é que tipos de projetos políticos podem ser levados à frente a partir desse ponto de partida. Em regimes democráticos, o acúmulo de recursos políticos, como o verificado em 2003, não constitui um fim em si mesmo.
Não se pode, por exemplo, comparar a trajetória do presidente Lula, com o percurso do ex-presidente peruano Alberto Fujimori ou a experiência de Hugo Chávez, que, em ambos os casos, trabalharam pela construção de uma liderança carismática para transitar na fronteira da ordem legal. A gestão do carisma de Lula obedece aos limites da ordem constitucional e sua mediação dos conflitos sociais é comedida. O episódio do boné do MST, usado pelo presidente em cerimônia no Planalto, pela intensa repercussão negativa e por sua escassa substância real, mostra bem o terreno onde se trafega. Os riscos de uma recaída populista, mesmo dispondo desses recursos políticos, são nulos. Nem valeria a pena tentar.
Caso o capital político do presidente da República fosse destinado a um uso exclusivamente eleitoral, o dilema presente seria entre aceitar simplesmente o quadro produzido em 2003, mantendo o curso moderado e aceitando um crescimento módico, ou mobilizar o capital político construído para arriscar medidas mais ousadas com o objetivo de acelerar a retomada da renda e do emprego.
O presidente da República tem sustentado publicamente a política seguida pela equipe econômica e usado sua popularidade para amortecer contestações. O grau de afastamento com relação ao que pode ser chamado de o “quadro da continuidade” tem sido calculado – como é o caso do modelo do setor elétrico, e, de forma geral, bem sucedido. Tem sido rápida a adaptação dos atores políticos e dos mercados a tais afastamentos.
A turbulência dessa semana, provocada justamente pela leitura conservadora do Banco Central sobre o rumo da economia, mostrou, porém, como continuam latentes as pressões em favor de maior ousadia no estímulo ao crescimento. Basta que a perspectiva de mais um ano apenas razoável afete, de modo claro, as chances eleitorais do PT e de seus aliados, para que novas demandas aflorem.
É em tal cenário que não se deve perder de vista as conseqüências do acúmulo de recursos políticos pela presidência em 2003. Tal acumulação lhe concede, na prática grande autonomia decisória para escolher que caminho seguir. Qualquer que seja ele.

 

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